O simulador da ADENE tem três pressupostos que distorcem as contas
Testámos o novo Simulador de Mobilidade Elétrica do Portal Poupa Energia durante uma semana. O custo estimado muda com o tamanho da bateria, a tarifa bi-horária é desvalorizada para quem carrega em casa, e os preços mostrados são os de ofertas reservadas a clientes. A ADENE respondeu às nossas questões e já assumiu duas correções.
Nota de transparência: o PlugNow está a desenvolver o seu próprio comparador de tarifários de carregamento. Todos os números desta análise saem dos ecrãs do simulador, da lista de ofertas da ERSE ou dos preçários publicados pelos comercializadores, e podem ser reproduzidos por qualquer leitor.
Como testámos
Fizemos simulações a 16 de setembro (antes da apresentação oficial), a 17, a 22 e a 23 de setembro. O perfil de referência foi o “Longa distância” (45 358 km por ano), com consumo de 22 kWh/100 km, concelho de Vila Franca de Xira, sem carregamento em casa, e esta repartição dos carregamentos na rede pública: 5% em postos normais, 57% semirrápidos, 33% rápidos e 5% ultrarrápidos. Guardámos capturas de todos os ecrãs, incluindo os parâmetros usados em cada corrida.
A 17 de setembro enviámos à ADENE um pedido de esclarecimento com sete questões. A resposta chegou e está refletida ao longo do texto.
1. O custo depende da bateria
Mantivemos tudo igual e alterámos apenas a autonomia indicada. Os quilómetros, o consumo e a repartição por tipo de posto são os mesmos, logo a energia necessária também: cerca de 9979 kWh por ano.
| Autonomia indicada | Custo anual (1.º lugar) | Custo por kWh |
| 330 km | 6735 € | 0,675 € |
| 500 km | 9374 € | 0,939 € |
São mais 2639 € por ano, ou seja mais 39%, só por se indicar uma bateria maior. O efeito repetiu-se em todas as simulações que fizemos, com os preços antigos e com os preços atualizados a 18 de setembro. A 22 de setembro, com os preços então em vigor, chegava a colocar o elétrico acima do carro a combustão usado como referência: 10 430 € contra 9934 €.
Na realidade passa-se o contrário. Para os mesmos quilómetros, uma bateria maior não consome mais energia, e até tende a baratear o carregamento na rua, porque implica menos paragens e, com elas, menos taxas por sessão. A explicação provável está na forma como o simulador estima a energia de cada sessão a partir da capacidade da bateria. Foi a única das nossas sete questões que a ADENE não respondeu.
2. A tarifa bi-horária desvalorizada em casa
Num cenário com 80% da energia carregada em casa numa wallbox de 7,4 kW, o simulador coloca em primeiro lugar a tarifa simples da EDP, à frente da bi-horária. A ADENE confirmou porquê: usa a distribuição de um consumo doméstico genérico, a mesma do simulador residencial do Poupa Energia, com 60% do consumo fora de vazio e 40% em vazio.
Quem tem uma wallbox carrega de noite, em vazio. Com os preços que o próprio simulador apresenta, e já contando com o termo de potência mais caro da bi-horária, a conta inverte-se:
| Energia carregada em vazio | Bi-horária | Diferença face à simples |
| 40% (pressuposto do simulador) | 1253 € | +17 € |
| 90% | 992 € | −244 € |
| 100% | 940 € | −296 € |
Para este perfil, a “melhor combinação” recomendada custa cerca de 250 € por ano a mais do que a alternativa. A ADENE não anunciou qualquer alteração a este pressuposto.
3. Preços de ofertas exclusivas para clientes
O preço que o simulador mostra para a EDP corresponde à oferta “Cartão EDP Charge – Clientes energia e carregador (25%)”. Na lista de ofertas da ERSE, essa oferta tem duas condições cumulativas: ser cliente de energia da EDP Comercial e comprar uma solução de carregamento em casa. É a mais condicionada das cinco ofertas vigentes da EDP.
O mesmo acontece com a Iberdrola. O valor apresentado, 0,1989 €/kWh, é o da oferta “Smart Mobility – Carregar Fora de Casa (Exclusivo Clientes)”. A alternativa sem condições custa 0,2486 €/kWh, mais 25%.
O simulador não pergunta em momento algum se o utilizador é cliente de algum comercializador. Questionada sobre isto, a ADENE respondeu que a ferramenta “não aplica nem valida autonomamente critérios de elegibilidade a descontos condicionais” e que os valores resultam da forma como cada comercializador comunicou a oferta à ERSE. Assume que é uma limitação identificada, que “será ponderada em desenvolvimentos futuros”, sem implementação prevista a curto prazo.
A consequência prática é uma lista em que ofertas com desconto competem com ofertas de preço de tabela, sem que nada o assinale ao leitor.
Duas correções já assumidas
Perguntámos por que motivo o termo de potência parecia ser sempre o mais barato e por que motivo as taxas e impostos só incidiam sobre a componente pública. A ADENE confirmou ambos os problemas.
- Termo de potência: o simulador considerava sempre o mais barato, independentemente da potência do carregador. Passará a usar o escalão imediatamente acima da potência escolhida.
- IVA: não estava a ser contabilizado na componente residencial dos preços de eletricidade.
As duas correções foram anunciadas para “o decorrer desta semana”. A 23 de setembro ainda não estavam aplicadas: numa simulação com 80% de carregamento em casa, o custo doméstico continuava a reconstituir-se exatamente com o preço sem IVA e com o termo de potência mais baixo.
A data que não bate certo
A ADENE informou-nos que a base de dados de ofertas foi atualizada a 18 de setembro. Confirmámos que sim: os preços da EDP passaram de 0,2022 / 0,1340 para 0,2120 / 0,1445 €/kWh. Só que a nota metodológica do simulador continuava, a 23 de setembro, a indicar 15/07/2026 como data de atualização dos dados. É o único sinal que o utilizador tem para avaliar se os preços estão em vigor.
O que o simulador faz bem
A ferramenta é gratuita, não tem publicidade e a ADENE garante que os dados dos utilizadores não são usados para fins publicitários. Junta num só sítio o tarifário de casa e as ofertas para a rede pública. Declara os pressupostos, ainda que de forma genérica, e responde a pedidos de esclarecimento com detalhe, o que nem todas as entidades fazem. Os tempos médios de sessão assumidos, por exemplo, foram-nos indicados sem rodeios: 300 minutos em posto normal, 120 em semirrápido, 30 em rápido e 15 em ultrarrápido.
Como usar o simulador, por agora
- Não confie nos valores absolutos para a rede pública, sobretudo se indicar uma bateria grande.
- Se carrega em casa durante a noite, não descarte a tarifa bi-horária só porque aparece atrás da simples.
- Antes de aderir a um cartão, confirme na lista de ofertas da ERSE se o preço apresentado exige ser cliente do comercializador.
- Para comparar preços sem pressupostos de utilização, a lista de ofertas CEME da ERSE continua a ser a referência mais direta.
Metodologia
Todos os valores do simulador foram retirados dos ecrãs de resultados e de detalhe das ofertas, com capturas datadas entre 16 e 23 de setembro de 2026, incluindo os ecrãs de parâmetros de cada simulação. Os preços da EDP Charge foram confirmados em edp.pt e na lista de ofertas comerciais de mobilidade elétrica da ERSE, tal como os da Iberdrola. Os custos alternativos da tarifa bi-horária foram calculados com os preços e o termo de potência apresentados pelo próprio simulador, para 7983 kWh anuais carregados em casa. As respostas da ADENE chegaram por email.
