Novidades · Salão de Paris 2026
O Citroën 2 CV está de volta — agora 100% elétrico, mais curto do que o original e com um preço-alvo de cerca de 15.000 €. Revelado hoje no Salão Automóvel de Paris, o 2 CV Concept antecipa um modelo de produção para 2028 e é o primeiro automóvel anunciado a pensar na nova categoria europeia de elétricos pequenos e acessíveis, o E-Car. Qual será o primeiro a chegar às estradas ainda está por saber.
Setenta e oito anos depois de se estrear no mesmo salão, em 1948, o carro que motorizou meia Europa volta com a mesma missão de então: ser simples, leve e barato. A diferença é que, desta vez, a Citroën tem de o fazer num mercado em que os elétricos ficaram maiores, mais pesados e mais caros — e em que Bruxelas decidiu, finalmente, dar uma mão aos pequenos.
“Reinventar o 2 CV não significa replicar um automóvel do passado; trata-se de reinventar o que o tornava único: a sua simplicidade, a sua acessibilidade e a liberdade que oferecia.” — Xavier Chardon, CEO da Citroën
| Citroën 2 CV Concept | Ficha rápida |
| Comprimento | 3,76 m (o 2 CV original media 3,85 m) |
| Peso-alvo | Cerca de 1.000 kg |
| Motorização | 100% elétrica |
| Bateria, autonomia e carregamento | Ainda não divulgados |
| Preço-alvo | Cerca de 15.000 € |
| Produção | Pomigliano d’Arco, Itália (programa E-Car da Stellantis) |
| Enquadramento | Futura categoria europeia E-Car (M1E) |
| Chegada ao mercado | 2028 |

O que é o E-Car e porque é que o 2 CV é o cartaz perfeito
Em dezembro de 2025, no âmbito do pacote automóvel, a Comissão Europeia propôs criar uma nova subcategoria de ligeiros de passageiros — a M1E — reservada a elétricos com até 4,2 metros de comprimento e fabricados na União Europeia. É o coração da chamada iniciativa E-Car, que pretende ressuscitar o segmento dos carros pequenos e baratos, que os fabricantes europeus foram abandonando à medida que os custos de desenvolvimento e homologação subiam.
O que a proposta põe em cima da mesa:
- Supercréditos de CO2: cada M1E vendido conta 1,3 em vez de 1 nas metas de emissões do fabricante.
- Estabilidade regulamentar: a Comissão compromete-se a evitar novos requisitos técnicos para esta categoria durante dez anos.
- Base comum para incentivos: uma definição única facilita aos Estados-membros a criação de apoios fiscais ou benefícios como estacionamento e portagens mais baratos.
A proposta ainda tem de ser aprovada pelo Parlamento Europeu e pelo Conselho [CONFIRMAR estado legislativo à data de publicação]. A Citroën, porém, já assume que o novo 2 CV “cumprirá os futuros regulamentos do E-Car”. Com 3,76 metros, fica muito abaixo do limite, posicionado entre o Ami — que é um quadriciclo, não um automóvel — e o ë-C3.
Mais curto do que o original: a lógica da leveza
Ao contrário do que costuma acontecer com as reedições, o novo 2 CV encolheu: 3,76 metros contra os 3,85 do original. Foi uma escolha deliberada para facilitar a vida na cidade e no estacionamento.
“Esta é a primeira vez que uma reedição é mais curta do que a versão original. A secção dianteira tinha de ser apelativa sem parecer um brinquedo.” — Pierre Leclercq, diretor de design da Citroën
A outra meta é o peso: cerca de uma tonelada. A Citroën descreve-o como um círculo virtuoso — menos peso permite uma bateria mais pequena e mais barata, que por sua vez reduz o consumo e o custo de utilização. Para os leitores do PlugNow, a tradução é simples: um carro leve gasta menos kWh por quilómetro, e cada kWh pago — em casa ou na rede Mobi.E — rende mais.
A simplicidade estende-se à reparação. Os para-choques estão separados da carroçaria e podem ser substituídos isoladamente, superfícies como a moldura do para-brisas são planas, e as entradas de ar estão na base do para-brisas, como no original. São soluções mais baratas de produzir e de reparar — um pequeno toque no para-choques não obriga a mexer na carroçaria. A Citroën diz ainda dar prioridade a materiais reciclados e recicláveis.
Design: um 2 CV sem cair na nostalgia
A silhueta é reconhecível à primeira vista, mas com linhas mais tensas e volumes mais musculados. Os detalhes que contam:
- Frente: faróis redondos destacados da carroçaria com assinatura LED, capô com os vincos do protótipo TPV de 1937 e limpa-para-brisas à vista.
- Lateral: para-brisas quase vertical, tejadilho em arco, piscas finos no pilar C e jantes de aço de 18 polegadas inspiradas nas originais, com pneus Michelin desenhados de propósito.
- Traseira: porta da bagageira em preto que desce até ao para-choques, como no primeiro 2 CV, três faixas horizontais e uma matrícula digital que mostra as alcunhas do 2 CV em vários países.
A cor exterior, Infra Red, parte de uma base laranja com reflexos que oscilam entre o amarelo e o vermelho conforme a luz.
Interior: menos ecrãs, mais ideias
Não há tablier convencional. No lugar dele, um cilindro concentra o volante de raio único — assinatura histórica da marca —, uma única alavanca para piscas, limpa-para-brisas e informação, e o seletor de marchas, que integra o botão de arranque.
- Citroën Smart Vision: uma faixa de informação no campo de visão do condutor, com percentagem de bateria, navegação e uma versão digital do velocímetro de tambor do Citroën GS.
- Ecrã “phygital” de 8 polegadas: quadrado, com três botões físicos para temperatura, volume e ventilação, e grafismo do autor belga de banda desenhada Jean-Luc Delvaux.
- Radioën: um rádio amovível que funciona também como coluna portátil, dentro ou fora do carro.
- Banco dianteiro amovível: tal como no original, para servir de banco de piquenique.
- Tejadilho de lona enrolável à mão: translúcido, recupera o briefing de 1937 — “quatro rodas debaixo de um guarda-chuva”.
Os bancos, com tecnologia Advanced Comfort, recuperam o padrão tartan usado entre 1953 e 1990, aqui em amarelo. Onde estaria a consola central há um cesto amovível impresso em 3D, numa mistura de madeira e plástico de base biológica.

Michelin: o pneu que se “lê” sem sensores
O concept estreia o Modelo Digital Universal do Pneu, desenvolvido com a Michelin. Sem qualquer sensor no pneu, usa dados que o carro já recolhe para estimar em tempo real aderência, desgaste, pressão e carga. Com isso, o veículo pode adaptar o comportamento às condições da estrada e avisar quando está na altura de trocar de pneus.
48 / 90 / 26 — e um capítulo português
No para-brisas há três números que os fãs vão reconhecer: 1948, a estreia em Paris; 2026, a apresentação do concept; e 1990, o ano em que o último 2 CV saiu da linha de montagem — em Mangualde. Foi lá, no distrito de Viseu, que terminou a carreira de um modelo produzido em mais de cinco milhões de unidades.
Desta vez, a história não passa por Portugal. Em maio, a Stellantis anunciou que os pequenos elétricos do seu programa E-Car serão produzidos a partir de 2028 em Pomigliano d’Arco, perto de Nápoles — a fábrica que hoje faz o Fiat Panda. O grupo fala em modelos para “várias marcas”: o 2 CV é o primeiro a ser mostrado e deverá seguir-se pelo menos um pequeno Fiat com a mesma base.
Há outras piscadelas de olho: a buzina e o som de arranque do motor elétrico imitam os do 2 CV, os pedais têm uma tartaruga (travão) e uma lebre (acelerador), e as bolsas das portas foram desenhadas para levar ovos — homenagem ao célebre caderno de encargos que exigia atravessar um campo lavrado com um cesto de ovos sem partir nenhum.

O que ainda não sabemos
O comunicado é generoso em design e avaro em números. Ficam por responder as perguntas que mais interessam a quem conduz um elétrico:
- Capacidade e química da bateria (a imprensa aponta para LFP, sem confirmação oficial).
- Autonomia WLTP e potências de carregamento em corrente alternada e contínua.
- Potência do motor e velocidade máxima.
- Plataforma — há relatos de que poderá usar tecnologia da Leapmotor, parceira da Stellantis, mas nada está confirmado.
- Preço em Portugal, equipamento de série e se os “cerca de 15.000 €” incluem ou não incentivos.
Leitura do PlugNow
O preço é a notícia — mas a vantagem é mais curta do que parece. O elétrico pequeno fabricado na Europa já não é uma promessa: em Novo Mesto, na Eslovénia, a fábrica do Grupo Renault produz o Twingo (desde 19.490 €), o novo Dacia Spring de segunda geração (desde 17.900 €) e, a partir do início de 2027, o Nissan PIXO, gémeo técnico do Twingo. Os três partilham a mesma plataforma e a mesma bateria LFP de 27,5 kWh. Contra o Spring, o 2 CV terá uma vantagem de cerca de 3.000 € — se a Citroën cumprir o preço — e terá de a justificar com carácter e com os números de autonomia e carregamento que a marca ainda não revelou.
E 2028 está longe. O 2 CV foi o primeiro a ser anunciado para a nova categoria, o que não garante que seja o primeiro a chegar ao mercado — nem dentro da Stellantis, que prepara outros modelos na mesma fábrica, nem fora dela. Quando chegar, encontrará o trio de Novo Mesto já instalado e o ID. Every1 da Volkswagen, previsto para 2027. Pelo caminho, há um pormenor que joga a seu favor: com 3,76 m, é mais curto do que o Spring (3,85 m) e do que o PIXO (3,80 m). O 2 CV vai chegar a um segmento bem mais disputado do que aquele que hoje parece vazio.
Também convém separar o concept do carro de série. Bancos sem apoios de cabeça, tejadilho de lona de ponta a ponta ou matrícula digital dificilmente passarão tal e qual para a produção. E o próprio E-Car não está isento de críticas: organizações de segurança rodoviária como o ETSC alertam que congelar requisitos durante dez anos pode deixar os carros pequenos de fora de futuras melhorias de segurança.
Para o condutor português típico — trajetos diários curtos e carregamento em casa —, um carro de uma tonelada com uma bateria pequena faz todo o sentido: enche-se durante a noite numa wallbox — ou até numa tomada doméstica — e gasta pouco por quilómetro. A dúvida que fica é a do costume: com que autonomia e a que velocidade carrega na estrada. Quando a Citroën a responder, voltamos ao tema.
Fontes: comunicado de imprensa Citroën / Stellantis Portugal (11 de outubro de 2026); Stellantis, anúncio do projeto E-Car (19 de maio de 2026); Comissão Europeia, pacote automóvel (dezembro de 2025). Imagens: Citroën.
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Categoria: Novidades
Etiquetas: Citroën, 2 CV, E-Car, elétricos acessíveis, Salão de Paris 2026, Stellantis
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