Relato partilhado por Rui Moura na comunidade Viver elétrico, no Facebook, publicado com autorização. Dados recolhidos pelo próprio durante a viagem.
Quem está indeciso na compra de um elétrico costuma fazer sempre as mesmas duas perguntas: quanto custa mesmo uma viagem longa, e quantas vezes é preciso parar. Este relato responde às duas com números reais, recolhidos ao longo de dez dias de férias em família.
O percurso foi Castelo Branco → Évora → Islantilla (sul de Espanha) e regresso, num Toyota C-HR+ Premium com três pessoas a bordo e a bagagem habitual de umas férias de dez dias. No total, 872,3 km por 42 €, o equivalente a 4,81 € por cada 100 km.
E, talvez o dado mais revelador: o regresso, de 413 km, foi feito de uma assentada, sem qualquer carregamento pelo caminho.
O trajeto: quase tudo fora da autoestrada
Este não é um relato de autoestrada. É precisamente por isso que interessa.
O percurso seguido foi a A23 até ao Fratel (cerca de 38 km), depois o IP2 por Portalegre, Évora e Beja, a nacional até Mértola, um troço final de IC27 e, por fim, cerca de 40 km de Via do Infante até Islantilla.
Ou seja: estrada nacional, IP e IC durante quase toda a viagem. Aldeias e vilas sem fim, semáforos de controlo de velocidade, a travessia de Estremoz, Évora e Beja, e as curvas intermináveis da nacional de Mértola. Uma escolha de gosto e de tradição familiar, mas também um cenário de consumo muito diferente do habitual — e mais favorável ao elétrico do que os 120 km/h contínuos de autoestrada.
Nota prática: as estimativas de tempo do Google Maps para este tipo de percurso são otimistas. Contem com mais do que aparece no ecrã.
Etapas e consumos
| Etapa | Distância | Bateria à chegada |
|---|---|---|
| Castelo Branco → Évora (26 ago.) | 192,5 km | 60% |
| Voltas por Évora e arredores | 44,5 km | 54% |
| Évora → Mértola (paragem para café, 29 ago.) | 132 km | — |
| Mértola → Islantilla | 90,2 km | 64% |
| Islantilla → Évora (5 set.) | 221 km | — |
| Évora → Castelo Branco | 192,1 km | 18% |
| Total | 872,3 km |
O carro tem 77 kWh de capacidade bruta. Segundo a Toyota, a capacidade utilizável é de 72 kWh — a marca reserva a diferença como buffer de proteção e para situações de emergência, prática comum na indústria.
Os três carregamentos: 42 € no total
| Onde | Tipo | Energia | Custo | Preço/kWh |
|---|---|---|---|---|
| Castelo Branco (Tesla Supercharger), 17%→100% | DC | 60,24 kWh | 16,20 € | ~0,27 € |
| Hotel Vila Galé, Évora (via Electroverse) | AC 22 kW | 39,97 kWh | 17,02 € | 0,43 € |
| Puerto Antilla Grand Hotel, Islantilla | AC 7 kW | 29,23 kWh | 8,77 € | 0,30 € |
| Total | 129,4 kWh | 41,99 € |
Três notas sobre estes números:
O preço da Tesla inclui subscrição. O autor carrega a 0,24 €/kWh, mas paga 8,40 € mensais de subscrição. Diluída no consumo mensal médio, a tarifa efetiva sobe para cerca de 0,27 €/kWh — e é esse o valor honesto a usar numa conta destas.
O carregador do hotel de Évora era de 22 kW, mas o carro só aceita 11 kW em corrente alternada. É uma limitação do veículo, não do posto. Vale a pena conhecer o limite AC do próprio carro antes de contar com um carregamento rápido de hotel.
O carregamento mais barato foi o mais lento. Os 7 kW do hotel espanhol, a 0,30 €/kWh, resolveram a recarga durante a noite sem qualquer inconveniente. Numas férias, o carregamento lento no destino é quase sempre a opção mais económica.
Consumo real: o número de bordo e o número da tomada
O computador de bordo registou 13,6 kWh/100 km de média na viagem completa (13,4 na ida, de Castelo Branco a Islantilla, e 14,0 no regresso). É um excelente valor para um percurso quase todo fora da autoestrada, com três pessoas e carga.
Mas a média esconde uma variação grande entre etapas, e o motivo é o relevo:
| Etapa | Consumo |
|---|---|
| Castelo Branco → Évora | ~15 kWh/100 km |
| Évora → Islantilla (via Mértola) | ~12 kWh/100 km |
De Évora para sul o terreno é essencialmente plano, e o troço final até Espanha desceu para valores que o autor descreve como extremamente baixos. É a diferença entre subir para a Beira Interior e atravessar o Baixo Alentejo — e mostra bem que, num elétrico, o perfil altimétrico pesa tanto ou mais do que a velocidade.
Mas há um segundo número, que raramente aparece nestes relatos e que é o que realmente pesa na carteira: 129,4 kWh pagos para 872,3 km dão 14,8 kWh/100 km à tomada.
A diferença — cerca de 9% — são as perdas de carregamento, que existem sempre e que ninguém vê no ecrã do carro. Em corrente alternada lenta chegam a ser superiores. Quem faz orçamentos com base apenas na média de bordo fica sistematicamente com uma estimativa otimista de custo. Este relato permite ver os dois valores lado a lado, o que é raro.
(Leitura complementar: consumo real de elétricos em autoestrada — o mesmo exercício, mas em condições de velocidade constante.)

O regresso: 413 km sem parar para carregar
O dado que melhor responde a quem hesita: no dia 5 de setembro o carro saiu de Islantilla com 100% e chegou à garagem em Castelo Branco com 18%, após 413,1 km [CONFIRMAR: o autor registou 412,0 km no total, mas a soma das duas etapas dá 413,1 km] e uma paragem de descanso em Évora, a meio do percurso.
Extrapolando, 82% da bateria para 413 km aponta para uma autonomia teórica próxima dos 500 km neste tipo de estrada. Houve uma única paragem — e foi para descansar, não para carregar.
O que este relato mostra a quem está indeciso
- O custo é o argumento mais forte, e nunca foi tão forte. 42 € para 872 km — ver a comparação com o gasóleo na secção seguinte.
- Fora da autoestrada, o elétrico brilha. As velocidades mais baixas do IP2 e das nacionais alentejanas explicam boa parte dos 13,6 kWh/100 km.
- A logística de carregamento pode ser praticamente nula. Três carregamentos em dez dias, dois deles a dormir no hotel.
- A autonomia real chega para uma travessia do país. Sem ansiedade, sem desvios, sem planeamento complexo.
- Onde se carrega importa mais do que quanto se carrega. O kWh mais caro desta viagem custou 43 cêntimos; o mais barato, 27. A diferença entre carregar bem e carregar mal é maior do que a diferença entre carros.

A mesma viagem a gasóleo
A comparação vale a pena fazer agora, porque o momento é particularmente ilustrativo. O gasóleo simples entrou esta segunda-feira, 7 de setembro de 2026, em máximo histórico em Portugal. A subida face à semana anterior situa-se, consoante a fonte, entre 12 e 15 cêntimos por litro — e isto já depois de o Governo ter aumentado o desconto extraordinário do ISP em cerca de 3 cêntimos para travar parte do aumento. A pressão vem da escalada no Médio Oriente e do bloqueio do Estreito de Ormuz, com o barril de Brent acima dos 97 dólares. [CONFIRMAR o valor médio DGEG de hoje antes de publicar.]
Para a conta ser justa, é preciso ser honesto com a premissa de consumo do lado térmico. Este percurso é quase todo feito a 80–90 km/h em nacional e IP, que é onde um motor a gasóleo está no seu melhor — mas com três ocupantes, bagagem completa, ar condicionado a trabalhar em agosto no Alentejo e a travessia constante de vilas e semáforos, um SUV compacto a gasóleo faz realisticamente 6,0 a 6,5 l/100 km neste tipo de estrada.
E, para não haver acusação de escolher o adversário mais fraco, incluímos também o Toyota C-HR híbrido — o mesmo carro, na sua versão mais eficiente com motor de combustão:
| Consumo | Custo/100 km | Viagem completa (872,3 km) | |
|---|---|---|---|
| Toyota C-HR+ elétrico (real, medido) | 14,8 kWh/100 km | 4,81 € | 42 € |
| Toyota C-HR híbrido | 5,0 l/100 km | 10,50 € | 92 € |
| SUV compacto a gasóleo | 6,0 l/100 km | 12,90 € | 113 € |
| SUV compacto a gasóleo | 6,5 l/100 km | 13,98 € | 122 € |
Gasóleo a 2,15 €/L e gasolina 95 a 2,10 €/L, valores de referência para a semana de 7 a 13 de setembro de 2026. Usámos deliberadamente o limite inferior do intervalo indicado pelas várias fontes do setor: se a média oficial da DGEG vier acima, a diferença a favor do elétrico é ainda maior do que a apresentada.
Mesmo contra o híbrido da mesma família — o cenário mais favorável possível ao lado térmico — o elétrico custa menos de metade. Contra um gasóleo, fica perto de um terço. E vale a pena sublinhar que os 42 € foram gastos em carregadores públicos e de hotel, não em casa: com carregamento doméstico em vazio, a diferença seria substancialmente maior.
(Ver também: Carregar na rede Mobi.E vs. abastecer a 2€, onde fazemos esta conta em detalhe.)
