Foram matriculados 5.079 ligeiros de passageiros 100% elétricos em agosto, mais 65,2% do que há um ano. Nas carrinhas comerciais, o crescimento foi de 227,5%. Os dados da ACAP mostram que o mercado deixou de ser eletrificado para passar a ser, cada vez mais, elétrico.
Os números de agosto de 2026 divulgados pela ACAP trazem uma leitura que os totais agregados escondem: o crescimento do mercado eletrificado está quase todo do lado dos 100% elétricos.
O conjunto dos eletrificados — elétricos, plug-in e híbridos — cresceu 20,5% em agosto. Os elétricos puros, isolados, cresceram 65,2%. A diferença entre estes dois números é a notícia.
Ligeiros de passageiros: 36,1% do mercado
Em agosto de 2026 matricularam-se em Portugal 5.079 ligeiros de passageiros novos 100% elétricos, mais 65,2% do que em agosto de 2025. Representaram 36,1% de todas as matrículas de ligeiros de passageiros novos do mês.
No acumulado de janeiro a agosto, foram 45.388 unidades, um crescimento de 43,1% face ao período homólogo, com uma quota de 26,8% do mercado total.
| Ligeiros de passageiros BEV | Unidades | Variação | Quota |
|---|---|---|---|
| Agosto 2026 | 5.079 | +65,2% | 36,1% |
| Janeiro a agosto 2026 | 45.388 | +43,1% | 26,8% |
A distância entre a quota do mês (36,1%) e a quota acumulada (26,8%) é significativa. Agosto é um mês de baixo volume — o mercado total de ligeiros de passageiros ficou-se pelas ~14.075 unidades — e meses assim tendem a exagerar quotas. Mas mesmo com essa ressalva, mais de um em cada três carros novos vendidos em Portugal em agosto foi 100% elétrico.
O cálculo que o comunicado não faz: os híbridos recuaram
Vale a pena fazer a subtração.
Em agosto de 2026 matricularam-se 10.391 ligeiros de passageiros eletrificados, dos quais 5.079 foram 100% elétricos. Sobram 5.312 unidades de híbridos e plug-in.
Aplicando as variações homólogas aos totais de 2025, chega-se a cerca de 8.623 eletrificados em agosto de 2025, dos quais aproximadamente 3.075 elétricos — ou seja, cerca de 5.548 híbridos e plug-in.
Conclusão: os híbridos e plug-in caíram cerca de 4% em agosto, enquanto os elétricos puros subiram 65%. Todo o crescimento do mercado eletrificado, nesse mês, veio dos elétricos.
(Cálculo do PlugNow a partir dos dados publicados pela ACAP. A ACAP não desagrega híbridos e plug-in dos elétricos nos totais.)
Uma ressalva honesta: no acumulado dos oito meses, os híbridos e plug-in ainda crescem — passaram de cerca de 58.450 para 71.291 unidades, cerca de +22%. O que agosto mostra é uma inflexão de um mês, não uma tendência confirmada. Vale a pena verificar se setembro repete o padrão.
Carrinhas elétricas: o crescimento mais explosivo
Se nos ligeiros de passageiros os números são bons, nos comerciais são extraordinários.
Em agosto matricularam-se 835 ligeiros de mercadorias 100% elétricos, um crescimento de 227,5% face a agosto de 2025. Representaram 34,1% do mercado de comerciais ligeiros novos.
No acumulado do ano: 5.116 unidades, mais 149,4%, com uma quota de 22,9%.
| Ligeiros de mercadorias BEV | Unidades | Variação | Quota |
|---|---|---|---|
| Agosto 2026 | 835 | +227,5% | 34,1% |
| Janeiro a agosto 2026 | 5.116 | +149,4% | 22,9% |
Há aqui um detalhe que merece destaque: dos 875 comerciais eletrificados matriculados em agosto, 835 eram 100% elétricos — 95,4% do total. Nos comerciais ligeiros, a eletrificação é praticamente só elétrica. Os híbridos nunca chegaram a ganhar tração neste segmento.
E a quota de mercado dos comerciais elétricos (34,1%) já está praticamente ao nível dos ligeiros de passageiros (36,1%). Há um ano, esta comparação seria impensável.
O que isto significa na prática: cada carrinha elétrica é uma frota que precisa de carregamento em depósito, tipicamente em corrente alternada durante a noite. É procura de infraestrutura privada que não aparece nas estatísticas da rede pública — e é uma das razões pelas quais as obrigações de instalação de pontos de carregamento em edifícios de empresas ganharam urgência. Ver Instalar carregadores na sua empresa: o que diz a lei.
Pesados: o único travão
Nos veículos pesados, agosto foi o mês fraco. Matricularam-se 50 pesados 100% elétricos, um crescimento de apenas 4,2% face a agosto de 2025.
O contraste com o acumulado é violento: de janeiro a agosto foram 700 unidades, mais 357,5% do que no ano anterior.
Estamos a falar de números pequenos — 50 veículos num mês — em que uma única encomenda adiada altera a percentagem. Não se deve ler agosto como sinal de travagem estrutural. Mas também não se deve ignorar que este é o segmento onde a infraestrutura de carregamento é mais exigente e menos desenvolvida.
Note-se ainda que, nos pesados, todos os eletrificados matriculados foram elétricos: 50 em agosto, 700 no acumulado, com os mesmos valores nas duas contagens.
O ângulo PlugNow: 50.500 carros novos, 15.680 pontos
Somando ligeiros de passageiros e de mercadorias, entraram em circulação em Portugal, só nos primeiros oito meses de 2026, cerca de 50.500 veículos 100% elétricos novos.
Do outro lado, no final de julho a rede pública ligada à MOBI.E contava com 8.239 postos, correspondentes a 15.680 pontos de carregamento, dos quais 3.268 postos ofereciam carregamento rápido ou ultrarrápido — cerca de 39,7% da infraestrutura.
Ou seja: por cada ponto de carregamento público existente no país, entraram este ano mais de três elétricos novos na estrada. E isto sem contar com o parque já existente.
Os sinais de pressão já aparecem nos dados da própria rede. Em julho, a MOBI.E registou pela primeira vez mais de um milhão de carregamentos num mês, um aumento homólogo de 30%, com mais de 258 mil utilizadores distintos — um crescimento de 89% — e mais de 25 mil MWh consumidos.
Repare-se na assimetria: os carregamentos cresceram 30%, mas os utilizadores distintos cresceram 89%. Isso significa que cada utilizador está a carregar menos vezes na rede pública, o que é coerente com um parque crescente de condutores que carregam sobretudo em casa e recorrem à rede pública apenas em viagem.
É a boa notícia dentro da má: a rede não está a ser esmagada porque a maior parte da energia entra em casa. O ponto de rutura, se chegar, vai chegar nos fins de semana prolongados e nos corredores de autoestrada — não na média mensal.
O que fica
Três leituras dos números de agosto:
- O mercado português deixou de estar a eletrificar-se e passou a estar a eletrificar-se a sério. A quota de 36,1% em ligeiros de passageiros coloca Portugal na frente europeia.
- Os híbridos podem ter chegado ao topo. Um mês de quebra não é tendência, mas é a primeira vez que o sinal aparece com esta clareza.
- Os comerciais elétricos são a história mais subvalorizada do ano. Crescimento de 227,5% num mês, com 95% da eletrificação do segmento a ser 100% elétrica.
O desafio deslocou-se. Já não é convencer os portugueses a comprar elétricos — os números mostram que essa fase acabou. É garantir que existe onde carregá-los.
Fonte: ACAP — Associação Automóvel de Portugal, dados de matrículas de agosto de 2026. Dados de rede: MOBI.E (julho de 2026). Cálculos de desagregação entre elétricos e híbridos da responsabilidade do PlugNow.
Perguntas frequentes
Quantos carros elétricos foram vendidos em Portugal em agosto de 2026? Foram matriculados 5.079 ligeiros de passageiros novos 100% elétricos em agosto de 2026, um crescimento de 65,2% face ao mesmo mês de 2025. Representaram 36,1% do total de ligeiros de passageiros novos matriculados no mês.
Qual é a quota de mercado dos carros elétricos em Portugal em 2026? De janeiro a agosto de 2026, os ligeiros de passageiros 100% elétricos representaram 26,8% do mercado, com 45.388 unidades matriculadas e um crescimento de 43,1% face ao período homólogo. No mês de agosto isoladamente, a quota subiu para 36,1%.
As carrinhas elétricas estão a crescer em Portugal? Sim, e a um ritmo superior ao dos automóveis. Em agosto de 2026 matricularam-se 835 ligeiros de mercadorias 100% elétricos, mais 227,5% do que em agosto de 2025, correspondendo a 34,1% do mercado de comerciais ligeiros novos. No acumulado do ano foram 5.116 unidades, mais 149,4%.
Os híbridos estão a perder terreno para os elétricos em Portugal? Em agosto de 2026, sim. Os elétricos puros cresceram 65,2%, enquanto o conjunto de híbridos e plug-in registou uma quebra de aproximadamente 4% face ao mesmo mês de 2025, segundo cálculos a partir dos dados da ACAP. No acumulado dos oito meses, contudo, os híbridos e plug-in ainda apresentam crescimento.
Quantos pontos de carregamento existem em Portugal? No final de julho de 2026, a rede pública ligada à MOBI.E contava com 8.239 postos, correspondentes a 15.680 pontos de carregamento. Destes, 3.268 postos ofereciam carregamento rápido ou ultrarrápido, cerca de 39,7% da infraestrutura.
