Dois leitores, na mesma semana, tropeçaram no mesmo problema por caminhos diferentes. Um pagou 25,62 € por um carregamento que a app tinha estimado em 10,93 €. O outro olhou para o preçário de um posto lento e não percebeu o que estava a ver. A explicação é a mesma nos dois casos — e não tem nada a ver com kWh.
Se carregas o carro em casa, este artigo é sobretudo cultura geral. Se dependes da rede pública, é dinheiro.
Em Portugal, o preço de um carregamento público não é um número. É uma soma de quatro parcelas, cobradas por entidades diferentes, e nem todas as apps mostram todas as parcelas antes de começares. Pior: uma dessas parcelas pode não ser medida em energia, mas em tempo. É aí que aparecem as contas que ninguém estava à espera.
Caso 1: de 10,93 € estimados para 25,62 € faturados
Um leitor carregou num posto rápido CCS2 de 60 kW, usando um cartão EDP Charge. A app simulava 39,6 kWh por 10,93 €. No final, levou 43,99 kWh e pagou 25,62 €.
Carregou mais 4,4 kWh do que o simulado, é verdade. Mas isso explica pouco mais de 1 €. Falta explicar o resto.
| Energia | Custo | Custo por kWh | |
| Simulação na app | 39,60 kWh | 10,93 € | 0,276 € |
| Fatura real | 43,99 kWh | 25,62 € | 0,582 € |
| Diferença | +4,39 kWh | +14,69 € | +0,306 € |
Aplicando o preço simulado aos kWh realmente carregados, dava 12,14 €. Sobram 13,48 € — cerca de 0,31 € por kWh de componentes que a simulação simplesmente não incluía. Não houve erro de faturação. Houve uma simulação incompleta.
As quatro camadas do preço na rede Mobi.E
O valor que pagas resulta sempre da combinação de quatro fatores distintos:
- CEME — o comercializador que emite o teu cartão. Vende-te a energia e inclui as tarifas de acesso às redes (TAR). É a única parcela que controlas ao escolher o cartão.
- OPC — o operador dono daquele posto concreto. Cobra pela disponibilização do ponto. Varia de posto para posto e é igual seja qual for o cartão que uses.
- EGME — a tarifa de gestão da rede, definida anualmente pela ERSE para remunerar a atividade da Mobi.E.
- Impostos — IEC e IVA à taxa em vigor, por cima de tudo o resto.
Mudar de cartão não transforma um posto caro num posto barato. A componente do OPC não se negoceia — só se evita, escolhendo outro posto.
A tarifa do OPC pode assumir quatro formas: valor fixo por carregamento, valor por kWh, valor por tempo de ocupação do ponto, ou uma combinação destes. É esta terceira hipótese — o tempo — que dá origem às maiores surpresas.
Caso 2: o posto lento que cobra 0,0738 € por minuto
O segundo leitor ainda nem tinha levantado o carro. Estava a planear as primeiras viagens e foi ver, na app Plan2Charge, o preçário de um posto AC de 11 kW junto ao alojamento onde ia ficar. O que encontrou merece ser lido com atenção.
Tarifa do operador, já com IVA:
- Taxa única de ativação: 0,1968 €
- Por tempo: 0,0738 € por cada minuto ligado
Repara no que não está ali: não há componente por kWh do lado do operador. O contador que corre não mede energia. Mede o relógio. E 0,0738 € por minuto são 4,43 € por hora.
Quanto custa ficar ligado
| Tempo ligado | Custo de ocupação | Com ativação incluída |
| 30 minutos | 2,21 € | 2,41 € |
| 1 hora | 4,43 € | 4,62 € |
| 1h25 (a sessão simulada) | 6,27 € | 6,47 € |
| 4 horas | 17,71 € | 17,91 € |
| 8 horas (uma noite) | 35,42 € | 35,62 € |
| 13 horas | 57,56 € | 57,76 € |
A última linha não é hipotética. No momento em que o leitor tirou o print, a app indicava aquele posto como «EM USO» há 13 horas. Alguém tinha ligado o carro e ido dormir. A conta dessa pessoa, só de ocupação, ronda os 57 € — para uma bateria que, a 11 kW, estaria cheia muito antes disso.
O paradoxo: quanto mais devagar carregas, mais caro fica
Uma tarifa ao minuto converte-se num preço por kWh que depende inteiramente da potência que o teu carro aceita. Quanto menor for o carregador de bordo, pior é o negócio — e o condutor não tem como o evitar.
| Potência real do carro | Energia por hora | Custo efetivo por kWh |
| 3,7 kW (monofásico simples) | 3,7 kWh | 1,20 € |
| 7,4 kW (monofásico 32 A) | 7,4 kWh | 0,60 € |
| 11 kW (trifásico 16 A) | 11,0 kWh | 0,40 € |
| 22 kW (trifásico 32 A) | 22,0 kWh | 0,20 € |
Valores só da componente do operador, a 0,0738 €/min. A energia do CEME acresce a isto.
Ou seja: no mesmo posto, à mesma hora, dois carros pagam preços por kWh que diferem em seis vezes. Um utilitário com carregador de bordo modesto paga 1,20 € por kWh — mais do que qualquer carregador ultrarrápido do país. E há um segundo efeito, mais subtil: à medida que a bateria se aproxima dos 80–100%, a potência baixa por proteção das células. Nos últimos pontos percentuais estás a pagar tempo cheio por energia a conta-gotas.
Regra prática: onde há tarifa ao minuto, o inimigo é o tempo parado, não a energia consumida.
Como te proteges
- Vê o preçário do posto antes de ligar. Confirma se existe componente «por tempo» ou «por ocupação». É a informação mais importante do ecrã e costuma estar em letra pequena.
- Nunca deixes o carro ligado depois de a carga terminar. Em postos com tarifa ao minuto, o relógio não deixa de correr quando a bateria enche.
- Desconfia de AC lento com tarifa ao minuto. É a pior combinação possível: muitas horas, pouca energia. Em postos lentos, procura tarifas por kWh ou por sessão.
- Não contes com um posto só. Muitos postos AC têm uma única tomada. Treze horas de ocupação, como no caso acima, deixam-te sem alternativa se não tiveres um plano B.
- Confirma se o posto é mesmo da rede Mobi.E. Muitos hotéis e alojamentos têm postos privados que não aceitam cartões CEME — ou são gratuitos para hóspedes, ou exigem uma app própria.
- Verifica se o posto tem cabo. Vários postos AC são só tomada. Leva sempre o teu cabo Modo 3 na bagageira.
- Guarda o detalhe da sessão. Se as contas não fecharem, pede ao teu comercializador a fatura decomposta por componentes. Aí sim consegues perceber se houve erro.
Tarifários flat: quando fazem a diferença
No mesmo print do segundo leitor, a app mostrava algo interessante. Para aquela sessão concreta — 15,68 kWh, cerca de 85 minutos — havia opções com preço final bem abaixo do que a tarifa do operador sozinha faria supor:
- Elli Premium: 5,33 € — cerca de 0,34 €/kWh
- Electroverse: 6,57 € — cerca de 0,42 €/kWh
São tarifários flat, praticados por operadores de mobilidade (eMSP) que negoceiam diretamente com os operadores dos postos e te apresentam um preço fixo por kWh, tudo incluído. A componente ao minuto continua a existir do lado do operador — só que não é a ti que ela é repassada.
O contraponto honesto: em postos com tarifa baixa, um flat sai normalmente mais caro do que um CEME convencional, porque o preço fixo tem de cobrir também os postos caros. Um flat não é a melhor escolha em todo o lado. É a melhor escolha exatamente onde a tarifa ao minuto morde — e por isso vale a pena ter um cartão desses guardado para esses casos.
Confirma sempre junto do fornecedor se o tarifário flat cobre o operador daquele posto. A cobertura não é universal.
E porque é que a Tesla parece tão mais simples?
Porque é. Os Superchargers são rede proprietária, fora do modelo Mobi.E. A Tesla é simultaneamente operadora do posto e comercializadora da energia, por isso mostra um preço único, já com tudo incluído, antes de ligares.
Na rede pública portuguesa há quatro entidades a cobrar na mesma sessão, e a app com que inicias o carregamento nem sempre conhece — ou mostra — as parcelas das outras três. Não é falta de transparência regulamentar: os preçários estão publicados. É falta de clareza no momento em que a decisão é tomada, que é quando importa.
Em resumo
- O preço de um carregamento público soma quatro parcelas: CEME, OPC, EGME e impostos.
- A simulação da app costuma mostrar sobretudo a parcela do teu cartão. As restantes só entram no fecho da sessão.
- A tarifa do operador pode ser cobrada ao minuto — e nesse caso o custo depende do tempo ligado, não da energia.
- Em AC lento, uma tarifa ao minuto pode empurrar o custo efetivo acima de 1 €/kWh para carros com carregador de bordo pequeno.
- Deixar o carro ligado durante a noite num posto com tarifa ao minuto é o erro mais caro que podes cometer na rede pública.
- Tarifários flat protegem-te nesses postos, mas saem mais caros nos postos baratos.
Os dois casos descritos foram partilhados por leitores em grupos portugueses de mobilidade elétrica e reproduzidos com os valores originais. Os preçários variam por posto e podem ter sido alterados desde a publicação — confirma sempre na app antes de iniciares a sessão.
Perguntas frequentes
Porque é que o valor simulado na app é diferente do valor faturado?
Porque a simulação costuma mostrar sobretudo a componente do teu comercializador (CEME). As parcelas do operador do posto (OPC), da entidade gestora da rede (EGME) e os impostos só são apuradas no fecho da sessão. Num carregador rápido, essas parcelas podem representar mais de metade do valor final.
O que é uma tarifa ao minuto num posto de carregamento?
É uma forma de cobrança em que o operador do posto te cobra pelo tempo em que ocupas o ponto, independentemente da energia que recebes. Existe para desincentivar ocupações prolongadas, mas penaliza fortemente quem carrega devagar ou quem deixa o carro ligado depois de a bateria estar cheia.
Vale a pena deixar o carro ligado a um posto público durante a noite?
Se o posto tiver tarifa ao minuto, não. A 0,0738 € por minuto, oito horas ligado custam mais de 35 € só de ocupação — e o valor continua a subir depois de a bateria estar cheia. Só faz sentido em postos que cobrem exclusivamente por kWh ou por sessão.
Os tarifários flat protegem da tarifa ao minuto?
Em geral sim. Operadores de mobilidade como a Elli ou a Electroverse aplicam um preço fixo por kWh que já inclui as tarifas do operador do posto, incluindo a componente de tempo. Em contrapartida, saem normalmente mais caros em postos com tarifas baixas. Confirma sempre se a cobertura inclui aquele operador.
Porque é que os Superchargers Tesla mostram um preço único?
Porque são rede proprietária, fora do modelo Mobi.E. A Tesla acumula os papéis de operador do posto e de comercializador de energia, o que lhe permite apresentar um preço final antes de iniciares o carregamento. Na rede pública portuguesa há quatro entidades distintas a cobrar na mesma sessão.
